sábado, 19 de setembro de 2009

Uma vida em duas horas

Phelipe tem 28 anos e lembra exatamente o dia em que nasceu: 10 de dezembro de 2003. Talvez essa data seja mais comemorada até do que aquela registrada nos documentos oficiais. Phelipe (re) nasceu depois de sucesivos sustos causados pelo consumo da cocaína durante uma adolescência desregrada; sem limites.
Natural de Campina Grande, abandonou a escola quando estava na quinta série de um colégio particular conceituado na cidade. Andava com pessoas que chama hoje de "más companhias". É adepto de esportes radicais: já foi skatista durante alguns anos e atualmente faz trilhas de moto. "Eu quero ir agora numa trilha de noite", confessa o próximo passo na busca da adrenalina. Ele também ama música e já foi inclusive cantor numa banda de pop rock de bairro. Ouve muito rock inglês e é autodidata no violão. Comparou aquele 10 de dezembro com o dia da morte da cantora Cássia Eller. Só para lembrar, a roqueira nacional morreu em 2001 por consequências de uma overdose de algum tipo de droga. E foi quase isso o que aconteceu com ele.
Mas, entre internações, soros, choques e a proximidade da morte, Phelipe acordou. Disse não ter precisado de ajuda específica para se livrar do vício. "Meu avô sempre fala uma coisa: 'O homem chega onde ele quiser ir e para de ir também quando quiser'". Não lembro se foram essas as palavras utilizadas por ele enquanto me contava a sua história de vida, mas a essência é essa mesma: tudo depende da vontade.
Naquele dia, caiu em si e decidiu parar com as drogas. Conseguiu. Está há quase seis anos "limpo". Hoje, mora sozinho em Campina Grande e trabalha com guinchos na empresa familiar criada pelo avô. A família dele mora em João Pessoa, onde vai visitá-la uma vez perdida no ano.
Apesar do pouco estudo nos bancos de uma escola, Phelipe é muito bem informado sobre atualidades, expressa-se muito bem e conhece como poucos a bíblia. Não é dos religiosos fanáticos não. Foi um dia testemunha de Jeová e pensa em voltar. Fiquei calado enquanto ele falava sobre Deus. Tinha propriedade para falar do assunto mais do que eu. Foi em Deus que ele encontrou a força que precisava.
Hoje, Phelipe não pensa em voltar a estudar. Quer assumir a empresa do avô para desenvolvê-la. Namora uma menina mais jovem que ele quase dez anos e pretende casar com ela no ano que vem.
Conheci Phelipe na fila para comprar passagens da rodoviária de Campina Grande. Conversamos por quase duas horas durante a viagem. Escutei mais do que falei. Afinal, ouvir a história de vida dele era mais interessante do que contar a minha...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Este, sim, é pra você!




Pouco mais de um ano e já acho que conheço a tua voz, a tua escrita, os teus objetivos. Como pode?! Disse certa vez - e não sei se lembras - que te conheço há mais tempo. Só não sei de onde, nem como, nem quando. É só o que falta saber... Preciso mesmo?! Não. Faz-me bem o que já conheço de ti. Das duas, uma: ou me contento com pouco ou o que você tem a oferecer é infinitamente grande.
Amiga do telefone, fui apresentado primeiramente a tua voz e só tinha ela para traçar um perfil físico que personificasse aquele som. Discutíamos, pra variar, trabalho!
Amiga do orkut, e da voz passei a conhecer também a imagem. Alguns poucos recados trocados sem o tema trabalho rondar tanto.
Do msn, dos altos papos madrugadas a dentro, conversando sobre tudo ao som de música boa. Apreendi um pouco da sua personalidade e do bom gosto musical que possui. Influenciadora; para o bem, claro.
Numa reunião, vi em carne e osso e algumas sardinhas (de sardas, tá!) o que conhecia antes apenas virtualmente. Que bom! E num abraço forte confirmei que de fato eras minha amiga.
Fazendo as contas hoje, as vezes que nos vimos pessoalmente não chegaram a vinte. Acho. Dois pontos percentuais para mais ou para menos (rsrsrs).
No dia do seu aniversário, grato pelo presente que é a sua amizade. Pra você, 365 dias desse novo ano de muitas felicidades, no plural mesmo para que elas venham de todas as partes que puderem vir.
Beijo, me liga!
Ps.: Tem algo que pague esse sorriso?! Tem não...

domingo, 12 de julho de 2009

Dias




Têm dias que nascem para ser inesquecíveis.
O do primeiro aniversário, namoro, beijo,
o da surra do pai ou da mãe, das palavras sábias de um velho,
o do primeiro emprego, o dia em que passou no vestibular,
o daquela briga com o melhor amigo, o de um banho de chuva,
o dia de uma festa bem aproveitada, cercado de amigos.
Um dos seus, Mary, foi o de ontem.
Um dos meus foi o dia em que te conheci.

sábado, 27 de junho de 2009

Festa em luto

Imagem: internet

Ainda cheguei a ver quando criança a forma mais tradicional de luto pela morte de um ente querido. Normalmente, as senhoras viúvas usavam durante sete dias vestimentas pretas, na intenção de exteriorizar o sentimento que as dominavam por dentro: a dor da falta. Pela novela das oito, soube que o luto na Índia é representado pelo branco. Em outros países, como no Egito, a tonalidade é a que se assemelha à de uma folha seca; o fim da vida.

Através de cores, atitudes, pensamentos, palavras, o luto pode ser manifestado por diversas formas. No mundo virtual do Orkut, por exemplo, a imagem de uma fita preta ou simplesmente a palavra "luto" expressa bem esse estado de espírito. E no mundo oficial, a bandeira a meio mastro indica que alguém de história relevante morreu.
O telejornalismo tratou de criar a sua própria forma de manifestar luto há algum tempo. Já virou tradição o silêncio que substitui a música tema ao fim do jornal, enquanto os nomes da equipe sobem na tela. Esse silêncio é também uma forma de homenagem pelo que representou a pessoa. Ele não foi utilizado quando da morte do jornalista Tim Lopes, há sete anos, substituído por aplausos dos apresentadores e equipe do Jornal Nacional, à qual Tim fazia parte. E ele também não foi muito usado agora, depois da notícia da morte do Rei do Pop, Michael Jackson. A atual cobertura, por sinal, é singular. Nunca vi tanta música e dança na cobertura de uma morte!Certamente, este é o luto mais festivo já produzido pela mídia que vi. E não tinha como ser diferente... Concorda?

quarta-feira, 17 de junho de 2009

EDITORIAL

Um show de afrontas a uma categoria decisiva na retomada da democracia no Brasil. É com a indignação devida que recebo a decisão infundada do Supremo Tribunal Federal nesta histórica e já famigerada quarta-feira. Por oito votos a um, os ministros do STF decidiram anular a exigência do diploma para o exercício do Jornalismo, numa luta que se arrastava judicialmente desde 2001.
Foram mais de quatro horas de discussões travadas por quem não tem o menor conhecimento do que seja o Jornalismo. E nem o respeito, diga-se de passagem. Entre as justificativas listadas pelos nobres ministros - com toda a ironia que este espaço me permite -, a principal delas baseava-se no argumento das instituições que protocolaram o recurso no STF: a de que a exigência do diploma tiraria da população o direito básico de manifestar suas opiniões, o que feriria a Constituição de 1988. Um argumento que não se sustenta por si só. Os jornalistas não temos o poder exclusivo de controle sobre a emissão de opiniões de quem quer que seja! E nem o queremos. O relator do processo e presidente do Supremo, ministro Gilmar Mendes, disse que o fato de um jornalista ser graduado não implicaria mais qualidade enquanto profissional. O seu pensamento, ministro, permite-me pensar que isso também seja perfeitamente aplicável ao exercício do Direito, pois é a exigência do diploma que sustenta o trabalho de milhares de juristas Brasil à fora.
Pela lógica da nossa Carta Magna, a função de legislar cabe ao Congresso Nacional e aos pares nas demais esferas do Poder Público, e não ao Judiciário. Reversão de papéis, é assim que chamo. Mas, ao contrário dos excelentíssimos ministros do STF, enquanto Jornalistas não possuímos o direito de anular tal decisão. Parece-me que o caráter humano seja tão fundamental para os jornalistas quanto para as demais profissões... Ou será que sou errado ao pensar desta forma?!
Para o exercício do Jornalismo é necessário, sim, bom caráter, domínio da comunicação, da língua portuguesa, mas também dos conhecimentos histórico, ético, filosófico, sociológico, técnico, prático. E é esse o valor cognitivo que se esconde atrás do diploma de qualquer graduado. O que o STF diria se eu quisesse ser um juiz, mesmo sem diploma? Teria eu a devida competência para julgar? Detalhe: na faculdade de Comunicação Social, estudei sobre leis.
A decisão de hoje entristece os jornalistas também pelo fato de uma instituição ligada à categoria ser corresponsável pela ação: o Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo (Sertesp). O outro responsável foi o Ministério Público Federal. Depois disto, creio que não seja mais justificável a imprensa falar sobre a morte do movimento estudantil. A desunião da categoria está provocando a morte dela também.
O Jornalismo do diploma obrigatório já provocou vários erros e injustiças, como ocorre em qualquer outro trabalho. Só que muitas das consequências são irreversíveis neste campo. Cito o caso emblemático da Escola Base, no qual a imprensa, em atitude apressada e irresponsável, divulgou haver a prática de abuso sexual por parte dos proprietários e alguns funcionários da escola. Tempo depois, a denúncia não se confirmou. Resultado: uma mancha na reputação dos denunciados que está longe de ser apagada. A decisão do STF de hoje abre espaço para que erros iguais ou maiores do que este se tornem cada vez mais frequentes no Brasil. E isso não é somente um mau presságio. É uma constatação óbvia!
A decisão está tomada e contra ela parece não haver possibilidade de alteração. Os detentores da verdade absoluta assinaram em baixo. Resta-nos agradecer pelo fato de haver nesse deserto de injustiça um grão de sensatez que foi o único voto favorável ao diploma, do ministro Marco Aurélio Mello. Ponto para eles!