sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Manual da indireta

Imagem: internet

Nem todo mundo sabe usar a sinceridade com elegância. Para estas pessoas, eu aconselho: sirvam-se das indiretas. Ao contrário do que andam espalhando internet afora, eu acredito no poder de ajuda que elas carregam. Eu mesmo já fiz uso deste recurso várias vezes nas redes sociais, com o objetivo de dar aquele toque a quem tenho apreço, mas não sou tão próximo a ponto de arriscar jogar uma "verdade" na cara. Se a carapuça vai servir ou não; se ela vai ser ponto de partida para uma mudança positiva ou não; se vou ser mal interpretado ou não; isso NÃO importa. Para uma minoria, a intenção ainda vale algo. E eu pertenço a este grupo, com orgulho!

Só peço que não misturem a boa função da indireta com covardia, maldade, imaturidade. Certifique-se de que as suas postagens possam facilmente ser enquadradas naquela categoria das críticas construtivas. Mesmo que não cheguem ao destinatário correto e seja decodificada preservando a orignialidade, que sirva de boa reflexão. Aí vale um lembrete: depois de clicar em botões como "publicar", "tweetar", "compartilhar", "enviar", as suas palavras chegarão a várias pessoas ao mesmo tempo, que estarão, cer-ta-men-te, inseridas em contextos de vidas também distintos. É aquela coisa do "atirar" na direção de apenas um indivíduo e acertar dezenas. É assim também que se cultivam desafetos...

Tenha em mente um problema que não seja exclusivo e, nas pontas dos dedos, responsabilidade. Para gente que não respeita a liberdade de expressão, basta um "Não é somente a sua opinião que deve ser levada em conta!". Aos preconceituosos, "Respeite as diferenças. A personalidade do ser humano não foi construída em linha de produção.". E por aí vai.

Claro que sou profundo defensor da conversa direta, de preferência olho no olho. Só que nem sempre ela é viável. Então, ficar parado é que não pode. Com dicas genéricas, que constituem pequenos gestos, você pode fazer coisas grandiosas. Que sejam para o bem... Penso assim, vocês podem respeitar a minha opinião?

Ps.: Este texto não foi direcionado a nenhuma pessoa. Surgiu de uma conversa de bar com um querido amigo.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

As paredes falam


A humilhação teve cara, corpo e nome hoje para mim.

Ela passou a noite em claro, com medo de um pesadelo que a persegue desde a juventude. Só que é palpável, audível, até chegar a ser insuportável. Minha avó materna nem deve lembrar de quando o alcoolismo dos outros entrou na vida dela pra ficar. Aguentou a brutalidade do marido, potencializada pela bebida, até ele ficar velho. No meio do caminho, três dos filhos mergulharam no vício, onde estão até hoje. Posso estar errado, mas um deles não sai mais de lá... Lembro com choque da minha mãe dizendo: "Ela nunca recebeu carinho. Por isso não tem o costume de ser bem tratada." Meu avô morreu há pouco mais de um ano. Meu tio, o mais trabalhoso de todos, faz questão de matar a cada dia uma fração da própria vida e outra da vida da própria mãe.

Não faz muito tempo, era admirável a coragem com a qual encarava a revolta do filho, com o dobro do tamanho dela, mas com nem metade da força que ela possui. Eu, criança e adulto, com medo ficava e fico diante das muitas situações. Agora, o que me chamou a atenção foi o medo. Com depressão há alguns meses, minha avó fechou a porta do quarto ontem à noite e ficou na rede, calada, enquanto o filho falava alto e sozinho em casa, fora de si de tão bêbado. Ela não dormiu. Minha mãe, ao lado dela, também não. Eu, num quatro próximo, coloquei música alta nos fones de ouvido e pouco escutei até adormecer já no meio da madrugada. Poucas horas depois, acordo com o som de um desabafo através das paredes. Mamãe "vomitando" os desaforos que teve de aguentar e que nem um chá conseguiu fazer com que descessem goela abaixo e fossem digeridos. Falou um tanto, ouviu outro. Na ira, ela - também enfraquecida - fortaleceu-se.

Irmãos mobilizados para salvar o resto de vida ao lado da mãe. Sempre de perto, eu observava tudo. Minha avó numa cadeira de balanço velha, a mesma de onde não saiu durante o velório do meu avô meses atrás. Cabeça sempre caída, olhar triste, fala pouca, cabeça longe, sem um sorriso sequer. Ela ouvia muita gente encaminhando a vida dela, sem pedir licença. Desconfiada, perseguia os rastros das armações dos filhos. Uma que cochichava com a outra, que telefonava para outro, que esperava outro chegar da casa próxima. Tudo a levava para uma decisão. E, antes que fosse sugerida, fez questão de publicar em poucas palavras: "Eu não aguento mais isso. Quero denunciar."

E assim fez. Depois de uma tarde de desabafo na delegacia do idoso de Natal (RN), voltou pra casa com um boletim de ocorrência nas mãos, disposta a dar um fim nos abusos de um dos filhos. Os outros, em escalas diversas de envolvimento, fecharam na decisão de que passou da hora de o irmão sair de casa. Eu fiquei com a impressão de que a disposição da minha avó foi fachada. Ela foi levada àquilo pela pressão. Esperta como a vida ensinou a ser, jogou água fria na situação até que ela retome as energias para participar do próximo espetáculo.

Naquele drama todo, aprendi um pouco mais sobre o que é uma mãe. Mesmo sem perceber, Dona Creuza cede um pouco da vida para proteger um filho que, aos olhos do mundo, não mereceria. Um preço caro, mas que não poupa. Ela responde com o bem, o mal que recebe. Admirável e assustador ao mesmo tempo. Que o bem vença essa guerra.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012


Um conto de Carnaval
Saía de casa de manhã, me juntava com os outros moleques da rua e íamos em busca do material para fazer as pistolas d'água "artesanais". Toda terça-feira de carnaval costumava ser assim há uns quinze anos. Minha mãe jamais poderia saber desses planos todos, senão não dava samba o negócio. Depois do almoço, meu imão mais velho e eu escapávamos de casa e aí começava a diversão. Divididos em grupos, cada um de um lado da rua, a guerra de jatos d'água começava. E durava o dia inteiro! Voltava pra casa ensopado. Aí o tempo foi passando e o meu carnaval caiu no esquecimento e no desgosto. Em alguns anos, ainda viajava para o litoral e passava o dia lá. Nos outros - a maioria - ficava na minha cidade mesmo. Overdose da festa do sudeste na televisão, com a qual nunca fui com a cara. Carnaval pra mim virou sinônimo de tédio, chatice.

Aí fiz greve da festa de Momo por longos anos. Até que em 2011, no finzinho, decidi com um amigo da época da guerra dos jatos d'água que voltaria a curtir o Carnaval em grande estilo. Ficar em casa pra quê, quando se tem muita diversão lá fora?! Sem muito planejamento, escolhemos a multiculturalidade de Refice e Olinda para 2012. Encontramos abrigo no apartamento de uma amiga minha e três dias de folga do trabalho, justamente quando a festa estaria no auge.

Fui sem gostar de frevo e voltei encantado com a dança e com uma sombrinha colorida típica na mala. Disse uma vez nesse meu feriadão: burro é quem não muda de opinião. Nada é fixo em vida. Mudei, inclusive, o conceito de Carnaval que tinha. Neste ano, a prévia da minha festa começou com trabalho dobrado para compensar os dias de folga, a ansiedade de viajar para curtir algo novo, em fazer a mala às pressas, em acordar de madrugada para chegar na rodovária a tempo de tomar café da manhã e bater um papo rápido divertido com o moço do guichê da companhia de ônibus:

-Tenho como comprar aqui a passagem de volta na próxima quarta-feira?
-Você tem certeza de que volta?
-kkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Bem, eu pretendo, pelo menos...

A festa em si foi dividida em dois dias que, de tão bons, passaram a impressão de que foram cinco, sete. Na programação, tomar cerveja numa birosca durante o dia, almoçar num hipermercado, conhecer gente nova, esticar o "s" para imitar "ox pernambucanox", encarar banheiros químicos (que são verdadeiras armas químicas. rsrsrs). Recife Antigo à noite. Ah, uma maravilha! Jamais havia sentido o espírito do Carnaval. Em cada esquina, um bloco diferente passava e nós acompanhávamos ao som de marchinhas antigas. Num dos primeiros, nossa anfitriã comenta:

-Nossa, como tem gente fantasiada de palhaço!

Olhamos para os lados e concordamos tassitamente. Mais na frente, avistamos o estandarte do bloco: "Segunda tem palhaço." Pérola um. kkkkkkkkkkkkkkkkk

Depois disso, um passeio pela estrutura e abrangência da festa. Praças, ruas, avenidas. Frevo, maracatu, samba, reggae, rock, música eletrônica... Vi um pedaço do show da Pitty, o Agridoce. Lindo. Passei pela tenda eletrônica. Aquela vibe mexe comigo. Passamos aperto para ver a apresentação do Seu Jorge. Dia de emoção indescritível! Voltamos à base para um descanso rápido. Depois, o dia inteiro em Olinda. Um outro Carnaval, praticamente. Tão bom quanto o primeiro que conheci lá pelas terras pernambucanas. Ladeiras, muita gente, bonecos gigantes, chuva intensa e uma bebida nova chamada Jurubeba. Uma potência! Tanto que "contrabandeei" duas garrafas para apresentar aos campinenses.
"Dormir é para us fracos e oprimidos". Ouvi e li muito isso nos últimos dias. Então, de uma festa para outra com o intervalo de uma refeição, apenas. E lá estávamos novamente no Recife Antigo para toda a animação da Elba Ramalho e do Alceu Valença. Perfeitos!

Até poderia ser mais detalhista, mas o básico foi isso. Hoje, quarta-feira, estou de volta a Campina Grande. Meu corpo, em cinzas de cansaço, saudade e alegria, pede um tempo para se recompor do melhor Carnaval da minha vida.

"Eu amo o Recife
E adoro Olinda
Mas não sei ainda
Quem fica em meu coração."

sábado, 27 de agosto de 2011

Eu vi e vivi

Quem me conhece sabe da péssima memória que tenho. Mas de uma cena que vi aos quatro anos de idade não esqueço: a volta da minha mãe da maternidade com o meu irmão. Tão pequeno, frágil... Diferente de hoje. Foi obrigado a "crescer" e tornar-se adulto antes do previsto. Amadureceu em alguns aspectos e em outros continua o adolescente incompleto de sempre. Passou pelo primeiro Dia dos Pais da vida recentemente. Eu não vi, mas minha mãe contou que logo cedo no domingo ele veio até em casa, abraçou e beijou meu pai. Agora sabe que existem outras prioridades na vida.
Amanhã ele faz 21 anos. Muitas coisas demoraram a acontecer na vida dele, como na de todo mundo. Só que as mais avassaladoras vieram de uma vez. Um namoro forte, a gravidez inesperada, o casamento polêmico, o primeiro emprego, as responsabilidades de quem ainda caminha para ser chamado de pai de família.
Sei que chorou, perdeu o sono. Vi o peso preso as suas costas muitas vezes. Vi quando fechou a cara, mudou de humor, de comportamento e fiquei com a sensação que perdi parte da vida do meu irmão. Pudera, com a rapidez que tudo aconteceu! Vi meu pai feliz em ser avô, minha mãe se acostumar com a ideia de "perder" o filho para outra família, meu irmão mais velho achar que ficou para trás. Eu acho que aceitei até ligeiro tudo. Pasmo! Pedi e peço que a criança seja para a minha família o que não fomos competentes de ser. E nessa lacuna cabem muitas coisas que não vou me dar o trabalho de descrevê-las. Espero que isso aconteça.
O tempo não poupou o meu irmão nesses meses. Espero que as coisas se acalmem neste novo ano que começa.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Carta de uma telespectadora

"A TV paraibana nunca foi tão ridicularizada. As mortes transmitidas das 12h às 13h, que já eram prato principal dos almoços de muitos paraibanos "vidrados" no Correio Verdade, agora estão do jeito que o jornalismo imprudente sempre sonhou: as pessoas riem da desgraça alheia e a bandidagem ainda vira melô,
hit musical...

Pois é, as novas celebridades do jornalismo local não são reconhecidas por seu trabalho sério e competente em informar. Não são vistas pelo Brasil como repórteres que elevam a Paraíba. São reconhecidas em toda a parte, mas, como o próprio Portal Correio anunciou em 2010: "Agora, toda a Paraíba vai ver e conhecer a força, a alegria e a irreverência de Samuca Duarte e Emerson Machado."
É mesmo uma pena que estivessem falando de um programa policial.
Sucesso no youtube, orkut e afins, a "dança do mofi" é unanimidade: agrada tanto aos cidadãos de bem quanto aos bandidos. As crianças, incentivadas até mesmo pelos pais, colocam a camisa na cabeça e com os braços para trás dançam e aumentam a popularidade do jornalismo que todas as tardes ri da falta de consciência de uma população, que já acostumada com a impunidade, resolveu aceitar que ela virasse piada.
Tratados como "amigos" (já que são a audiência), os criminosos até gostam das brincadeiras. Afinal de contas, nem é assim tão grave o que eles fazem...
Para mim, parecia que já tinham usado e abusado de todas as armas do sensacionalismo. Mas mostraram que não. No dia 31 de março, o telejornal foi transmitido em pleno Mercado Público de Mangabeira e, é claro, com direito a palco e plateia. A cada notícia de mais uma entrada no Hospital de Emergência e Trauma ou de uma briga em bar que acabava em morte, uma música era tocada pela banda que estava participando do Caravana da Verdade. Lágrimas, perdas e outras tristezas que merecem respeito (seja por quem for), viraram show. Um show desejado e aclamado por muitos telespectadores. Ah, a ideia contraditória e doentia da contratação da banda foi anunciada no prórpio Portal Correio, com as seguintes palavras:" A Banda Identidade Baiana realizará um show para animar ainda mais o evento, das 11h às 14h."
Samuka Duarte, Emerson Machado ( Mô- fi), Marcos Antonio (O Àguia), Josenildo Gonçalves (O Cancão da Madrugada) e toda a equipe de edição do Correio Verdade conseguem, dia após dia, tornar animadas as refeições de paraibanos que não se importam em almoçar frente às cenas de corpos perfurados e poças de sangue humano. Creio que não conseguem, com a mesma eficácia, tornar menos dolorosa a sina de uma mãe que sente a dor de ter um filho que agora é presidiário; de parentes de uma criança que morreu acidentalmente; ou de um pai que vê seu filho destruído pelas drogas, morto e servindo de audiência para um programa de humor chamado Correio Verdade.

Não sou jornalista. Sou nutricionista, mas antes disso, cidadã. Incomodada com o desprezo explícito à vida humana senti a obrigação de pedir a todos os meus contatos que repensem seus valores de respeito e dignidade à vida sempre que pensem em assistir esse e outros programas que indiquem sinais tão fortes de insulto a nós, telespectadores. Insulto a nossa capacidade e direito de exigir jornalismo de qualidade em palavras e atitudes.
(...) Quanto mais as pessoas se conscientizarem dos "pequenos" males que nos envolvem com graça e alguns risos com gosto de sangue, mais chance teremos de exercer e usufruir daquilo que chamamos de cidadania. Merecemos mais respeito.
Atenciosamente,
Elaine Oliveira
Nutricionista e Personal Diet"